sábado, 25 de janeiro de 2014

22º dia - 23.01.2014 - Era para ser um dia monótono...

(Texto escrito num arquivo word em 23.01.2014, não publicado nesse dia por falta de sinal de internet) 

Buenas pessoal!
Ontem à tarde, enquanto "lutava" contra os motoristas e a falta de acostamento na BR-116, trecho Jaguarão/Pelotas, era monitorado à distância pelo Ebenézer Garcias - um camarada que passou de carro por mim no dia 05 de janeiro pp, próximo a Pelotas, e que, dias depois, procurando saites sobre viagens de bicicleta no Uruguai, localizou meu blog, me reconheceu como sendo aquele sujeito que ele encontrara na rodovia, e passou a se comunicar comigo.
Hoje de manhã tive a grata oportunidade de conhecê-lo pessoalmente! O cara foi no Hotel antes da minha partida, para podermos conversar um pouco. Chegou lá, claro, de bicicleta. É um apaixonado pelo ciclismo. Pedala por lugares muito interessantes, principalmente nas colônias de Pelotas, e fiquei admirado dum trabalho que faz junto com outros amigos às 6ªs à noite, de pedalar com iniciantes até a Praia do Laranjal, onde vão comer um pastel famoso que há. Que legal, compartilhar o conhecimento com quem está iniciando no esporte. Estão todos de parabéns. 
E eu ganhei mais um amigo, a quem agradeço pela preocupação que demonstrou com minha segurança naquele trecho que conhece muito bem e que sabia seria difícil.


Se eu não estivesse já "queimado" no horário para partir, certamente teríamos estendido a prosa, pois o cara é mecânico de bicicleta de profissão, curte pedaladas, sabe o que fala. Foi um barato conhecê-lo.
Mas era necessário girar o pedivela rumo à casa.
Eu imaginei realmente um dia monótono na estrada. Obras em toda a extensão da BR-116, barulho, poeira, tranqueira, acostamento estoporado, vento contra, calor, caminhão, caminhão, caminhão, e eu querendo chegar em Cristal ou no mínimo no Posto Coqueiro em São Lourenço do Sul, uns 70 km mais à frente.
No almoço, num restaurante de beira de estrada, finalmente encontrei feijão preto - do qual andava com saudades -, que serviu de molho para o espaguete. Foi uma senhora refeição.
À meia-tarde cheguei no trevo de São Lourenço do Sul. Até a algumas semanas atrás tinha grandes amigos residindo nessa cidade - a Carla, seu esposo Ilton e a pequena Manuela - mas, com sua recente mudança para Porto Alegre, não vi motivos para entrar na cidade. Toca fazer pose na rótula só para registro da passagem por lá.


Estava nessa função quando avistei ao longe dois cicloturistas vindo da mesma direção que eu. Meu dia na estrada sofreu uma guinada de 180°!


São eles a Sarah e o Brett, norte-americanos que estão dando a volta ao mundo sobre bicicletas. 
Foi uma aproximação instantânea! Eu, louco por companhia, eles por informação.
Conversamos durante mais de 1 hora no trevo. Para minha surpresa, a Sarah fala um espanhol espantosamente correto, pausado, claro. Foi muito fácil me comunicar com ela. Já o Brett arranhava o espanhol, quando não lembrava da palavra resmungava em inglês e a Sarah traduzia.
Ela é doutoranda em Ciência Política e sua viagem está sendo financiada por uma universidade da Filadélfia, de onde são naturais e onde ela estuda. A tese que ela defenderá tem a ver com o Direito das Sociedades.
Ele é professor de artes, escultor ceramista, e, por dar aula na mesma universidade, pôde vir também. Já estiveram, entre outros países, na Tailândia, na Indonésia, na Tunísia, na Argentina, no Uruguai e, agora, no Brasil. 
Foi no Uruguai que compraram essas bicicletas aro 20" com as quais viajam. Vão devagar, quase parando. 50 km por dia. 
E ávidos por informações do Brasil! Fui torpedeado de perguntas, ainda mais porque não falam português. Bã, que coragem a deles!
Tiramos uma foto juntos porque eu disse que seguiria na rodovia, e eles não sabiam se iam acampar na beira da Lagoa dos Patos ou seguir viagem. 


Quando já estava alojado no Hotel Coqueiro, indo guardar minha bicicleta, quem aparece? Os dois! Fiquei muito contente (e acho que eles também).
Combinamos jantar juntos e olhem, vou dizer uma coisa, foi uma das conversas mais interessantes que tive em toda a viagem.
Esses dois malucos são cultos, despojados, humildes, curiosos, e também têm a consciência de que são forasteiros, por isso procuram saber como tudo funciona porque querem respeitar as regras do lugar onde estão. Não demonstraram temor algum e me vi obrigado a alertá-los para tomarem cuidado com as bicicletas, com dinheiro muito à vista, com documentos. Sabe-se lá o que lhes pode acontecer por causa de uma bicicleta diferente, se aqui no Brasil matam por um boné...


Levei o mate e eles, que já tinham experimentado a bebida no Uruguai, me fizeram companhia no amargo.
Tarde da noite nos despedimos. Pela segunda vez. Não sei se amanhã os verei, embora tenhamos combinado sair na mesma hora. Mas eles sabem que meu ritmo é mais forte, não viajaremos juntos.
Sorte a eles! São de um destemor assombroso. 
65 km pedalados hoje, 1.929 km no total.
Bait'abraço!

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